20/06/2014

Para quando amanhecer

Por Aline Diedrich 
http://weheartit.com/entry/8268905/search?context_type=search&context_user=MaryyMur&page=4&query=girl+boy+window+night

O vento levou embora as folhas mortas como simbologia daquelas dores que exorcizei. Bastava de masoquismo. Bastava do mais autêntico masoquismo da alma. Junto das pessoas, haviam adormecido todas as agitações e perturbações. Eu não. Eu, ainda sob o efeito hipnotizador dos olhos do moreno, deixei que o som embalasse a noite, madrugada adentro, como uma imperfeita boneca de pano que desperta da inércia, com todas as suas curiosas inquietações. As luzes da cidade pareciam saudações, vistas da janela do alto daquele prédio, num bairro sujo no país das maravilhas.

O etílico, ah o etílico! Mais uma dose apenas e não ficaria nada além das verdades, principalmente das ironias, que libertou. Bastava de meias verdades. Propus, portanto, brindes ao meu estúpido domínio da razão. Às vezes que bati com a cabeça na parede dando de cara com as atravancas do caminho. Brindei aos meus olhares tortos, aos olhares fixos, aos outros amores atravessados. De tudo, guardei o saber de que páginas viradas não voltam.

“Good vibes”, ele falou e despencou, em queda livre, num sono e em sua esquisita apneia de onde voltaria umas cinco horas depois com cheiro e gosto de café amargo. Ah moreno...

Em sua magnitude, debochado, o céu quase sorria pra mim. Os paralelepípedos, lá embaixo, assombrados, esperavam ansiosos pela oscilação da vida. Eu, absolutamente honrada como aquela que sobreviveu ao caos e todos os cacos deixados pra trás, sorri de canto, disfarçada, como cúmplice, e pedi perdão pelos meus paradoxos, mas sem nenhuma pretensão em deixar de tê-los.

Então do vento, não veio tempestade. E eu, onipotente, megalomaníaca por natureza, finalmente me senti pequena diante do sol que surgiu tímido e trouxe com ele o cheiro de jornal das manhãs. Quem diria, justamente eu, que – sem meio termo - era preto no branco, descobri que existiam todas as cores em mim.

Ah, moreno... Se você soubesse...

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14 comentários:

  1. Muito bom, adorei.
    Um texto muito sereno, com muitas incógnitas, da maneira que gosto.
    Parabéns Aline, é lindo, não pare.
    Abraço!

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  2. Delicia de cronica, Aline. Elegantemente construída, com competência.

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  3. Boa tarde Aline.. grato pela presença.. nossa vida é sempre regada com um novo amanhecer, mesmo envolta em perturbações diárias que fazem parte do plano físico somos caminhantes atraindo ou repelindo as pessoas conforme nosso eu.. muito bem escrito te desejo um lindo dia

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  4. A culpa é sempre do etílico rsss;
    Muito bom.
    Tem uma homenagem para ti lá no H. E. e O. P.
    Não é nada de responder

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  5. Ahhh moreno!!!! hahahahaha
    Adorei esse texto! Delicioso de ler. A vista vai correndo simplesmente. Parabéns!

    Beijos! :)

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  6. Quanta poesia em parágrafos! Ah, esses amores que trazem uma inspiração contraditória — onde cada contradição vira uma estrofe de antíteses — para dentro da gente... E que doce inspiração!

    Beijos ♥ Jeito Único

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  9. Gostei do teu estilo intimista. Agradeço aqui tua visita ao meu modesto espaço. Um abraço. Tenhas uma linda semana.

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  10. Que texto bem escrito. Gostei muito da forma como você escreve, vou ler alguns outros textos seus.

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  11. Adorei o texto, tão cheio de passagens cotidianas e tão bem escritas.
    Parabéns, Aline.
    Beijos.

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