27/09/2012

Branca sem neve


Por Aline Diedrich

Da sacada, ele observava a paisagem do subúrbio ao som da chuva forte e do vendaval que arrastava as folhas e arrancava as flores que haviam rompido o concreto. Meninos e meninas sujavam os pés nas poças enquanto corriam para buscar refúgio, e existia também um cachorro que latia medroso.

Bagunça ali dentro. Não só dos móveis, mas na mente inquieta de um boêmio compulsivo que vivia o dia na espera da noite só para rever o pôr-do-sol, o céu estrelado e sentir o frio da madrugada. Porém, naquela sexta-feira não seria assim, porque como se não bastasse todo o resto, iniciava também a tempestade de granizo.

Batidas na porta ignoradas no início, mas depois mais fortes e de maneira desesperadora, fizeram com que ele, por fim, se movesse dali. E ao girar a maçaneta caiu sobre seus pés uma menina magricela, pálida e tatuada. Assustado e depois convencido do que deveria fazer, arrastou a garota até o sofá empoeirado.  

Pensou em como despertá-la, porém parecia ter caído num sono profundo. Engano, profundo era um sonho. Chacoalhou. Chacoalhou. Chacoalhou. E nada! A única hipótese é que haviam dado maçã envenenada para a mocinha da história. Mas que porcaria, justamente ele que não acreditava em príncipes, sapos e pererecas, viu-se de repente no meio de um conto de fadas dentro do castelo do canto mais pobre da cidade.

Um beijo, sabia, costumava despertar todas as princesas. E beijou. E que nojo. A boca, apesar de vermelha de um batom tão forte, tinha gosto ruim de cigarro misturado com tequila. No entanto, a menina abriu os olhos de supetão. Não por ter gostado, mas porque tudo ali realmente fedia e havia traças e ratos. Ele atirou-se para trás. Ela gritou.

Então pulou para frente do espelho e viu-se desfeita, sem blush e com os olhos borrados de uma maquiagem ruim. Sim, o próprio reflexo dizia, qualquer bruxa era mais bela que ela em noite que pensou ser cinderela. E lembrou-se, um pouco, dos dois últimos dias, da exaustão do trabalho e da festa à fantasia com os colegas do curso de artes.

__ Vou embora assim que a tormenta passar.

Afirmou. E ele pensou, atormentado pelo desejo, sobre ser feliz no final. Mas que se dane, queria aproveitar o tempo todo com jeito de lobo mau.

37 comentários:

  1. belissimo conto.principalmente a parte do lobo.rsrsrsrs

    ResponderExcluir
  2. os textos estão ficando maiores, mas mantendo a qualidade.

    ResponderExcluir
  3. Gostei da história e da nova roupagem.

    http://thamyrisaquino.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. uma visão deturpada da fantasia ... gosto disso rs

    ResponderExcluir
  5. Adorei o texto muito legal.. retribua visita se puder

    http://snestalgia.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  6. Legal. Nem todo conto é de fadas e precisa de final feliz.

    www.cchamun.blogspot.com.br
    Histórias, estórias e outras polêmicas.

    ResponderExcluir
  7. Nossa muito legal, afinal nem tudo é fadas.
    Me surpreendi com esse texto,não estava esperando o final assim^^
    Beijos

    ResponderExcluir
  8. Uau fantástica essa história adorei principalmente a parte do lobo mal. amei o texto. adorei teu blog, já to seguindo.. Da uma passadinha no meu blog ?
    -> Estilo 4 U

    Abração
    Não deixe de conferir...
    Divulgue seus sorteios | Facebook

    ResponderExcluir
  9. Curto e compartilho os seus contos/crônicas.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  10. Aline :)
    Como vai?
    Bem legal seu texto,misturando a realidade dos personagens com uma fantasia e talz *-*
    Bem criativo :)

    Beijos e cuide-se
    Tenha um excelente final de semana

    ResponderExcluir
  11. Olá!Boa noite!
    Aline!
    ...hoje as coisas acontecem tão mecanicamente, que certas atitudes parecem distantes. O beijo é rápido e logo...e a Cinderela sequer consegue imaginar encontrar um príncipe que abra a porta do carro, só Lobo Mau querendo "pegá-la"...se é que me entende!
    Obrigado pelo carinho da visita!
    Bom final de semana!
    Beijos

    ResponderExcluir
  12. Nossa Aline, achei surpreendente, não a forma com que escreveu, pois conheço teu talento, mas toda a disposição do conto, todas as inserções e trocadilhos voltados ao conto de fadas moderno que termina como a vida é... Lobos maus querendo comer suas refeições xD Parabéns! Muito muito criativo.

    Bom finDi o/

    ResponderExcluir
  13. Adorei a forma como desconstruiu a historia, um conto da vida real, e o melhor de tudo, por mais que pareça sombrio e negativo, se olharmos por outro angulo, e lermos com outra interpretação, podemos ver que a historia pode ser feliz na visão dos dois pernosgens mesmo sem o "final feliz" tradicional de casal que estamos acostumados, achei ótimo parabéns.

    ________________________________
    http://anteontemmusical.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  14. Também já fiz versões mais, digamos, intensas, rs, de contos de fada, mas no meu caso foi a da Chapeuzinha Vermelho. Ótima esta tua versão, com muita criatividade. Bjo

    ResponderExcluir
  15. Muito bom! Me prendeu, criativo e adorei o final!
    http://mardeletras2010.blogspot.com.br/2012/09/havia-um-poeta-no-meio-da-sexta-feira.html

    ResponderExcluir
  16. Adoreei ALine, principalmente o final "aproveitar o tempo todo com jeito de lobo mal".
    Lembro certa vez que uma blogueira chamada Aline ( vocÊ? ksks ) disse que deveriamos fazer o que der na telha, nao nos importando com porens e pqs.
    Essa foi uma das opiniões mais fortes que recebi na altura de meus 18 anos, poucos vividos.
    Digo pouco vivido, porque sempre fui aquele que vive em função de tentar agradar, ser o politicamente correto, a não ser por algumas opiniões fortes e um vocabulário cheio de "Foda-se" e palavrões ensaidos para parecer um pouco "rebelde", pobre ingenuo eu sou.
    Só que adorei o seu texto, bem escrito, discursivo, romantico e autentico.
    É isso ai Aline *-*

    ResponderExcluir
  17. Tenho escrito uma série no meu blog chamada "os amores mínimos". O seu é a casa dos amores brutos. não brutos no sentido violento da palavra, mas bruto como ainda não lapidado. selvagem. natural. instantâneo.

    gosto sempre de passar aqui.

    ResponderExcluir
  18. ah vai, beijo de de cigarro misturado com tequila não é tão ruim assim! kk

    ResponderExcluir
  19. Os finais felizes nem sempre justificam os meios tensos...

    ResponderExcluir
  20. adorei a criatividade... geralmente as pessoas veem os contos como lindos e belos

    ResponderExcluir
  21. Cada dia os textos vão ficando melhores e ficando mais interessantes para ler.

    www.rodrigobandasoficial.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  22. E você se supera a cada dia com seus textos. Parabéns!

    ResponderExcluir
  23. [e a imagem escolhida para o post ilustrou bem os predicados emprestados no texto!]

    ResponderExcluir
  24. nuss otimo >,<
    parabens, escrita nota dez

    http://tabernadoviking2.blogspot.com.br/2012/09/eduardo-spoh.html

    ResponderExcluir
  25. Nenhuma princesa assim aparece na porta de casa rsrs

    ResponderExcluir
  26. po seu texto me lembrou a historia em quadrinhos "fabulas" muito bom..escreve muito bem parabens!!


    http://www.facebook.com/Nerdofobia

    ResponderExcluir
  27. Vengo del blog poesiassensuaisecontos y me ha encantado tu Rincón; por lo cual, si me lo permites, me gustaría ser Seguidor de tan bello Espacio, lleno de Magia, Sentimientos y Sensaciones.
    Un abrazo.

    ResponderExcluir
  28. Adorei esse texto desde o título até a última frase.
    Nem sempre precisamos de um final feliz, talvez só precisamos viver aquele momento.

    Beijos,
    Monique <3
    http://www.secretsofalittlegirl.com/

    ResponderExcluir
  29. Adoooooooooooooooooro desconstruções dos contos de fada! Cê já tinha me ganhado no título, sendo bem sincera. Mas, sério: adorei. Essa vibe releituras de contos de fadas que poderiam perfeitamente acontecer na vida real são uma atração fatal pros meus olhos leitores. Beijos!

    ResponderExcluir
  30. ótimo conto!

    www.todososouvidos.blogspot.com

    ResponderExcluir
  31. A caracterização da personagem ficou muito legal. Adoro essa coisa de misturar contos de fadas com nossa realidade sombria e desequilibrada.

    ResponderExcluir