06/04/2012

O mito do coração de pedra

Por Aline Diedrich

Então havia um coração...

Anoiteceu, a primeira estrela despencou, a cidade adormeceu, as cigarras – as insuportáveis cigarras – cantavam no enunciar de um pesadelo, e a coruja que olhava para ele por si só já era estranha.

Inquieto. Braços agitados e boca que puxava o ar gelado do inverno, ofegante. Inquieto. Detestava ter nascido assim. Abominava também o fato de ter nascido lá. Habitante do lugarejo de cheiro de pó, de poeira que irritava o nariz, da paisagem envelhecida formada por casinhas esquisitas, do bucólico e do sem graça.

Parou em frente o coração. Imperioso e grande com pretensões de tocar o céu, feito de pedra e colocado no centro do lugar – por coincidência também centro do universo - há muitos mil anos.

Acaso ou não, aquela rocha também fazia barulho. O ruído se sobressaía mesmo ao grilo que chegou para compartilhar o momento com seu terrível cricrilar. E ele permanecia parado, mas mexendo-se em demasia, e não gostava nada da algazarra dos bichos em seus ouvidos.

Pegou o primeiro ferro que encontrou. Tirou o casaco e a camisa. Exibiu os bíceps. Bateu contra a pedra, fazendo saltar os pedaços sobre os telhados e provocou um estrondo que despertaria até quem possuía o mais profundo dos sonos.

Então havia um coração...

Frágil, pequeno, desprotegido e verdadeiro (que ficou escondido dentro da pedra grandiosa por tantos mil anos). Pulsava em ritmo acelerado. O cerne da própria vida. Tirou as pedras que ainda encobriam e segurou. Ficou estagnado. Parado com cara de otário. Tinha em mãos algo vermelho que manchava. E pulsava... E pulsava... Então correu... Fugitivo ao som de sirene. E de cigarra. E de grilo. E sob o olhar recriminador da coruja.

Escondeu o coração no fundo de uma caverna.

Pegou o trem do primeiro minuto que o sol raiou novamente e partiu.

E no trem existia alguém de olhar bonito.

Pela janela observou uma pedra.

Então havia...

37 comentários:

  1. Você tem estilo, realmente gostei de ler essa estória, parabens e continue assim! Muito bom mesmo!

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  2. Oi Aline,
    Parabéns pela qualidade de suas produções!
    O texto é sensacional!
    Bjus!
    Estou seguindo, segue de volta?

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  3. Adorei o post,adorei o blog e to seguindo..

    Se quiser visitar o meu fique a vontade

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    Se quiser seguir e comentar fique a vontade também..

    Beijo e sucesso!

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  4. Mais um bom texto. Mais subjetivo. Talvez seja apenas coisa da minha cabeça, mas fico procurando detalhes nas entrelinhas das pessoas, escritas e discursos. Às vezes as entrelinhas que encontro não são necessariamente as entrelinhas que o escritor buscou. Mas aí que é interessante. Acho que às vezes batalhamos pelas coisas, pelas pessoas e amores, utilizamos nossa força o máximo que conseguimos, pois justamente essa coisa ou pessoa nos resgata do monótono e da poeira dos nossos dias. Mas aí certo dia, tudo se perdeeo coração sangra, talvez por nossa culpa. Então nos vemos ao lado de uma outra pessoa, tão empoeirada quanto nossa vida anterior. Vi que és gaúcha também! Um grande beijo! salpage.blogspot.com

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  5. Muito interessante seu blog, já estou te seguindo, sempre que puder visite também o meu.
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    Será sempre bem vinda!

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  6. Ai que sufocante, ninguém gostaria de ter nascido assim. Uma vez tava doente e para que, fui ficar hóspede num lugar cheio de pó, sem muita higiene. A gripe simplesmente não passou: em dois meses!

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  7. Adorei o texto, um texto para se pensar abstante,parabens




    Passem por lá.
    http://aprincesademonio.blogspot.com.br/

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  8. Amei esse texto! Vc escreve mt bem :)

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  9. Lindo texto, moça! =)

    Parabéns!

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  10. Que bela estória!
    De bela singular e que nos faz refletir sobre uma porção de coisas essenciais nessa vida.

    Apreciei esse post!

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  11. Ficou mesmo um máximo. até senti a espinha a arrepiar de tanto gostar.

    Obrigado pelas palavras tão bonitas.

    Beijinho

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  12. Uau
    Muito boa a idéia e a narração, gostei bastante e agora to matutando como seria a pessoa com um olhar bonito hehe
    Gostei muito (:

    beijo

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  13. O seu jeito de escrever é definitivamente único, menina. Fico impressionada com seus textos sempre que venho dar uma passada no seu cantinho.
    Enfim... acho que uma hora ou outra alguém vai aparecer para nós fazer encontrar um caminho, um lugar para chamar de nosso e se encaixar perfeitamente, sem odiar tudo, sem querer mais nada.

    Beijos,
    Monique <3
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  14. maravilhoso o texto, eu não tenho nem palavras para descrever ele,
    parabéns! terá continuação?

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  15. A vida amolece a pele e endurece o coração. Um beijo

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  16. Bom texto, tem uma narrativa envolvente.

    abraço,
    www.todososouvidos.blogspot.com

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  17. "Escondeu o coração no fundo de uma caverna"
    É o que todos nós fazemos quando percebemos que músculos não são totalmente capazes de proteger os nossos corações. E o que fazemos com nossas mãos, nossos atos, também machucam, ferem a nós mesmos.

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  18. Bon texto, a vida é dura às vezes. Mas é a vida.

    Um amigo beijo

    Obrigado por visitar o meu cantinho de saudade.

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  19. Que bonito Aline!!! Nem um coração de perdra está livre de um sentimento. Assim como a àgua e o vento esculpem as pedras, um sentimento também...

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  20. Boa noite Srta
    como vai?
    Já sabe o que acho dos seus textos néh ... então vou dizer apenas
    ...ADOREI; ...

    Parabéns Lady

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  21. O jeito que você escreve me encanta. E é sempre assim!

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  22. O mundo nos endurece muitas vezes. Vamos acumulando camadas de sentimentos ruins que acabam nos transformando em pedra. Às vezes é preciso que alguém de fora venha nos livrar armadura de pedra e nos revelar que ainda há um coração...

    Tenha uma boa quinta.

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  23. Nem todos estão preparado para deixar o coração viver... :)

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  24. "Tinha em mãos algo vermelho que manchava. E pulsava... E pulsava..." Gostei muito disso. Incrível como algumas coisas que vc escreve, com tanta naturalidade, me tocam tão profundamente.
    Parabéns Aline, mais um texto perfeito.

    Beijos. =)

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  25. ''Então havia um coração...
    Frágil, pequeno, desprotegido e verdadeiro (que ficou escondido dentro da pedra grandiosa por tantos mil anos). Pulsava em ritmo acelerado. O cerne da própria vida. Tirou as pedras que ainda encobriam e segurou. Ficou estagnado. Parado com cara de otário. Tinha em mãos algo vermelho que manchava. E pulsava... E pulsava... Então correu... Fugitivo ao som de sirene. E de cigarra. E de grilo. E sob o olhar recriminador da coruja.''

    Adorei essa parte, ótimo texto menina :)

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  26. BRAVO BELÍSSIMO
    http://dicasdadacy.blogspot.com.br/

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  27. Vc me lembrou algumas pessoas que conheço que se fazem de pedras, mais por mais firmes que sejam, tem um coração frágil pulsando dentro do peito. Pura carapuça!

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  28. Aline, vi o link na comunidade novos escritores do Brasil e fiquei pasmo: há tempo, muito tempo não lia textos curtos tão bons.Você é uma verdadeira artista. Continue sua jornada literária. Gostaria de trocarmos impressões e idéias sobre literatura. Meu nome é Caio Alexandre no orkut e Caio Alexandre Bezarias no face. Também escrevo e tenho blog,

    saudações.

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  29. Seu texto é muito bom...
    Adorei o blog e aproveito para te convidar para visitar o meu também.
    http://ocultos-ainsgniadaestrelanastrevas.blogspot.com.br/
    É o blog do livro que lancei em dezembro do ano passado.
    Espero sua visita, seus comentários e sua participação.
    Um abraço

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  30. Adoro textos que não se encerram em si e que são trabalhados. Seu texto é uma bela metáfora.
    .
    Até.

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  31. Eu realmente acho que você tem que escrever um livro! Sério, você consegue passar pelas palavras algo tão bom, alguma coisa doce. mesmo que nem sempre a história seja feliz, eu vejo algo bonito. :)

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  32. Aline

    Tudo que você escreve, além de extremamente poético tem o poder de nos falar diretamente com as nossas emoções

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