30/04/2012

Desconfie quando o fogo não queimar

Por Aline Diedrich

Fazia um tempo em que o tempo era estranho. Enunciava-se uma tempestade de raios...

Calor exagerado. Lampiões apagados pelo vendaval que varria as folhas secas que cobriam o chão. Mafagafos criavam ninhos nos telhados dos casarões. Balanços, gangorras e portões enferrujados movimentavam-se e provocavam irritante barulho. De resto, havia muito silêncio. Pessoas andavam caladas demais comparadas ao murmurinho que se fazia na praça – também chamada de Ágora - todos os dias num passado recente. Calor realmente exagerado.

Foi a primeira vez que pisou naquele lugar pitoresco. Carregava apenas uma bolsa velha. Joelhos roxos de tantos tombos que a vida havia lhe dado. As mãos sujas por cinzas que encontrou no caminho. A bicicleta era a companhia perfeita e os pés quase sempre descalços. Seus olhos fotografaram todos os elementos misteriosos e a poeira levantada pelo vento. Pediu um cappuccino e aproveitou para perguntar ao rapaz o motivo de tanta melancolia.

Ele sorriu. Ela sentiu o deboche do sorriso. Ela sorriu. Ele sentiu a malícia do sorriso e daquele rosto imperfeito. Foi quando mascarados puxaram Ela pelos braços e levaram para o cume – o mais alto ponto do lugar e que não passava de poucas polegadas de altura – para saber de qual mundo vinha.

Perplexa com a estranheza de tudo, temeu apodrecer em um cárcere sem nada ter feito. Nada ter feito até o momento presente. Foi então que se lembrou da principal arma que carregava e sabia de fato usar: palavras. Porque o único pecado que cometia (e nem acreditava em pecado) era mentir sem sentir culpa.

__ Lá fora não há o que ver! (Para quem não quer ver).

Depois correu. Fugitiva. Percorreu léguas e léguas. Atravessou a estrada e desapareceu do outro lado, deixando a marca de seus pés pequenos na terra avermelhada, e um pedaço de roupa rasgada numa cerca farpada que havia também. E Ele seguiu todas as pistas, com jeito irônico, expressão de desbravador e uma bicicleta velha para devolver. Encontraram-se, um dia, distante dali.

Foi assim que Ela descobriu de onde vinha o calor que fazia e ninguém desconfiava. Tão intenso quanto os raios e as chamas que ardiam e queimavam. Mas não era o sol. Nem a cuspida de um dragão. Porém produzia fogo e jamais temeria se queimar, porque aquecia... Porque Ele aquecia demais, estranhamente.

E os outros habitantes (inconsolados com o tempo quente, quase fervendo) daquele mundo pequeno – do universo que acabava ali no mato que escondia a estrada – para sempre tentariam espantar os mafagafos. Tentariam.

Enunciava-se uma tempestade de raios de sol...


38 comentários:

  1. Encantador um tempestade de raios de sol, mais um conto lindo. :D
    http://oicarolina.wordpress.com/

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  2. encantador seu texto, um conto lindo e tocante.
    Estou te seguindo.
    Da uma passadinha no meu.

    http://vida-fragil.blogspot.com.br/

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  3. perfeito texto. adorei..
    comenta no meu tambem :

    http://debysabetudo.blogspot.com

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  4. gosto muito dos teus textos, são sempre muito bons

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  5. Geralmente tenho preguiça de ler textos publicados em blogs, porque de alguma forma não me interessa e pode ter certeza que a maioria nem lê e sempre vem com aquela: ótimo texto rs
    Mas tem uma escrita correta e com um tom certo de emoção, foram poucos textos que li inteiro, então tome isto como um elogio.

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  6. Seu texto é gostoso de ler. Muito bom, narrativa simples e leve.

    abraço,
    www.todososouvidos.blogspot.com

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  7. Realmente "ENCANTADORA"
    sua forma de escrever!
    Sempre digo isto, mais não tenho culpa ... já que sempre escreve tão bem! ...rss

    Tenha uma ótima tarde Srta Aline!
    e Bom Feriado!

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  8. é impressionante como vc nos transporta em uma viajem em cada
    texto.maravilhoso por sinal.
    parabéns!!

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  9. Me vem em mente uma criança se deliciando ao brincar na natureza... muito bom!

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  10. belíssimo texto!


    bjksssssssss


    http://ibagis.grandemidia.net/

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  11. obrigada Aline!

    gosto do modo que escreve, estou sempre passando por aqui e adorando!
    adorei!

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  12. Voltei para saber das novidades, post interessante tive um bom proveito. Seu blog é o meu favorito.Nova post lá no blog, passa lá. http://jpbigblog.blogspot.com.br/

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  13. "Amor é fogo que arde sem se ver"
    Seu texto é a comprovação desse verso.
    Amor não se vê, mas se sente; não queima, mas aquece.
    Essas são algumas verdades inquestionáveis da vida...

    Aproveite o feriado. Beijo.

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  14. A linguagem que você usou para criar o cenário é tão linda. Imaginei um lugar tão bonito e ao mesmo tempo tão quente. Foi gostoso de ler.

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  15. gostei muito deste blog. Gostei de como você consegue capturar o leitor e transportá-lo para seu mundo..

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  16. O amor é como o fogo na nossa pele, ele queima desconfortavel e ao mesmo tempo bom, muito bom. São os picos desse sentimento tão lindo e complicado. Lindo texto :D

    Beijos,
    Monique <3
    http://www.secretsofalittlegirl.com/

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  17. Muito bom, gostei da densidade da história. Bjos

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  18. Já disse que sua maneira de escrever cativa e encanta? Pois então.

    E o amor? Ah, ele aquece intensamente.

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  19. Incrível como as pessoas se identificam com o seu texto, não? Não sei se a sua intenção é justamente essa, ou quando você escreve acaba 'saindo' naturalmente. De qualquer forma, é lindo.

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  20. Nossa *O* que linda postagem menina :)
    a maneira que você emprega as palavras ..minha mente fluiu



    Beijo :*
    Mastigando uns Tijolos'

    http://helenthaiis.blogspot.com.br/

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  21. Que belo texto.
    Gostei dessa frase:
    -Lá fora não há o que ver! (para quem não quer ver).
    Lindo hein! Parabéns!!!

    Estou seguindo aqui. Dá uma passadinho no meu e deixa sua marquinha lá. Bjs!!!

    http://myway-mw.blogspot.com.br/

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  22. Tem um ar de provocação em seus textos, são lindos.

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  23. "para quem não quer ver, nenhuma janela, nenhuma porta é suficiente"

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  24. Textos provocantes, instigadores, com ar mítico e intimista. Muito bons seus escritos, parabéns!

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  25. Quando vejo o tamanho do texto, as vezes dá aquela preguicinha de ler todo. Porém, teus textos tem sempre aquele "gostinho de quero mais" rs. Adorei! ;)

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  26. Excelente texto!!!
    Parabéns pelo blog.

    Abraços.

    Flávio
    www.ouvindolivros.com

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  27. Gostei do conto, escrever muito bem..

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  28. Gostei do texto! Em especial essa parte: "Lá fora não há o que ver! (Para quem não quer ver)."

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  29. Nossa adorei o post, é muito encantador e nos faz pensar.

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  30. Não sei o motivo, mas seu conto me fez lembrar a música de Adele, eu já tinha lido ele, mas esqueci de comentar isso. :D
    http://oicarolina.wordpress.com/

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  31. Olá :)

    Ahhh, que gracinha! Uma tempestade de raios de sol, muito fofo #adorei

    Beijinhos

    ---
    www.jehjeh.com

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  32. parabéns!!!! nunca tinha visitado seu blog, gostei muito dos textos, você tem o dom! parabéns de novo

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  33. a coisa que mais gostei foi do titulo do texto muito criativo

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  34. Agora vou desconfiar Quando o fogo ñ queimar Otimo TEXTO Sucesso para vc!!!

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